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REAL THAW 2013

Texto: Paulo Mata
Artigo publicado no jornal Take-Off de fevereiro de 2013



Real Thaw: Verdadeira fusão. Seja do gelo que cobre grande parte da Europa nesta época do ano, seja do metal no calor do combate. Em qualquer dos casos, um nome forte, para o maior e mais completo exercício aero-terrestre levado a cabo em território nacional.
Nascido no seio da Esquadra 301, quando era ainda a única a operar o F-16 MLU na Força Aérea Portuguesa (FAP), rapidamente, mas de um modo estruturado, evoluiu para o exercício de Apoio Aéreo Aproximado, multinacional e multi-forças que é hoje.
Este ano, as forças colocadas no cenário criado de um conflito regional com características contemporâneas, incluíram F-16 das Esquadras 201 e 301, P-3C da Esquadra 601, C-130 da Esquadra 501, C295 da Esquadra 502, EH101 da Esquadra 751 e os veteranos Alouette III da Esquadra 552, entre os meios aéreos nacionais. Numa despedida dos céus europeus marcaram este ano presença os A-10C dos EUA (USAF). Como vem sendo habitual, um E-3 Sentry da NATO foi o centro de AWACS (Airborne Warning and Control System), e um Falcon DA20 da empresa britânica COBHAM efectuou missões de guerra electrónica.


No terreno, forças do Exército (CTOE – Centro de Tropas de Operações Especiais, CTC – Centro de Tropas Comando, ETP – Escola de Tropas Para-quedistas, BRIGMEC – Brigada Mecanizada), da Marinha (DAE – Destacamento de Ações Especiais), simultaneamente tornaram o cenário idealizado mais realista, treinando também por sua vez missões aero-terrestres através dos meios do exercício.
Dos EUA e Países Baixos vieram ainda Controladores Aéreos Avançados (FAC), elementos fundamentais nos conflitos dos dias de hoje, que juntamente com os seus congéneres nacionais puderam treinar procedimentos nas comunicações com os meios aéreos envolvidos.
Durante as duas semanas de duração, o exercício foi ainda suportado pelo Centro de Relato e Controlo (CRC), Pessoal de Apoio - informações de com¬bate, relações públicas, audiovisuais, apoio médico, manutenção, logística, comunica¬ções e operações da FAP, a entidade organizadora do evento. A protecção no solo, das aeronaves envolvidas em acções no terreno, foi assegurada por elementos da Unidade de Protecção de Força, um corpo da Polícia Aérea.


Segundo o Tenente Coronel Carlos Lourenço, Chefe do exercício, o Real Thaw é já, à sua quinta edição, um exercício consolidado, estruturado à imagem do que de melhor se faz no mundo dentro do género. Pode dizer-se que atingiu a "velocidade de cruzeiro" em termos de organização, sendo as alterações introduzidas de ano para ano, essencialmente relacionadas com a adaptação aos meios participantes. Ainda assim, na presente edição, uma novidade mais foi adicionada, com o intuito de aproximar as condicionantes do exercício às de um teatro de guerra real: a interferência dos meios de comunicação e informação no desenrolar das operações e decisões da estrutura de comando do exercício, através da geração dinâmica de notícias relacionadas com o cenário fictício criado.
Também a participação dos P-3 da Esquadra 601, um meio normalmente associado a operações marítimas, tem vindo a conhecer alguma evolução na sua utilização em operações terrestres, com a introdução da nova versão CUP+, que permite o seu uso como plataforma de ISR (Intelligence, Surveillance and Reconaissance), através dos seus modernos sensores e meios de transmissão de dados, que possibilitam a transmissão, em tempo real, aos FAC no campo de batalha, dados sobre a distribuição de forças no terreno, vitais para facilitar a tomada de decisões no teatro de operações.


Novidade este ano foi também, e tal como anteriormente referenciado, a participação dos A-10 americanos, uma aeronave com características distintas de todas as que até à edição de 2013 haviam participado, e que por serem utilizadas maioritariamente nas funções de apoio a Busca e Salvamento de Combate (CSAR), significaram um valor acrescentado para as forças portuguesas, que com a Esquadra 82 da USAF puderam trocar experiências e procedimentos específicos, dentro deste tipo de missão. Já o comandante das forças americanas, o Cor. Clint Eichelberger, enalteceu as características do exercício e as condições proporcionadas aos participantes, dizendo que este foi "o mais próximo possível que se pode chegar de um cenário real", com uma grande variedade de situações e interacção, quer com forças de superfície, quer com outros meios aéreos diversificados. A simples operação conjunta com meios de outras nações (à semelhança do que sucede na maior parte dos conflitos actuais), os briefings massivos com as múltiplas forças envolvidas, num cenário e país desconhecidos, proporcionam o treino perfeito para que quando for a sério, as dificuldades não sejam uma novidade.




Assim, e dentro dos objectivos traçados, desenrolaram-se entre 11 e 22 de Fevereiro no interior centro-norte do país, missões de defesa do espaço aéreo, protecção a helicópteros e viaturas terrestres de transporte e ajuda humanitária, apoio aéreo a forças terrestres e operações especiais, extracção de elementos militares e não militares em território hostil, com e sem ameaças aéreas, lançamento de carga aérea para ajuda humanitária, lançamento de pára-quedistas, busca e salvamento em zonas de combate e evacuações médicas.
No total, estiveram envolvidos nas operações cerca de 4000 militares e 40 aeronaves, tendo-se realizado um total de 456 horas de voo e 215 saídas, de dia e de noite.

Foto: Lee Ann Sun/USAF

À parte dos objectivos militares atingidos com o exercício, centrados na proficiência e prontidão das forças envolvidas, estima-se que o impacto da realização de um exercício desta magnitude represente um valor entre um a um milhão e meio de euros na economia das populações locais, gerado em grande parte pelas forças estrangeiras destacadas no nosso país.







ALÉM DA CÚPULA DO VULCÃO - O Patrulhamento Aéreo da Islândia


Texto: Paulo Mata
Artigo publicado no jornal Take-Off de outubro de 2012 e revista Air Forces Monthly de dezembro 2012


Nos dois últimos anos, o mundo ficou vários dias quase estático devido a vulcões islandeses, por norma, de nome quase impronunciável, mas cujas cinzas conseguiram prender em terra aviões de toda a Europa. Foi, contudo, nessa ilha, quase no Círculo Árctico, que estiveram recentemente destacados seis F-16 das Esquadras 201 - Falcões e 301 - Jaguares, da Força Aérea Portuguesa (FAP). 




Rezam as crónicas que o navegador João Vaz Côrte-Real partiu da Islândia algures na década de 1470, em expedição pelos mares do Atlântico Norte, durante a qual terá descoberto o continente americano, quase duas décadas antes de Colombo. Desde então, pouco mais interacção tem havido entre os dois países, à parte das visitas durante muitos anos de bacalhoeiros portugueses às suas frias águas e mais recentemente, do futebol.
Por que razão foram destacados os F-16 da Cruz de Cristo para este setentrional país, é o que se afigura, por isso, perguntar.
A Islândia - cuja tradução literal significa "Terra de Gelo" - é membro fundador da NATO, não tendo, contudo, forças armadas. A defesa do seu território, incluindo o respectivo espaço aéreo, foi efectuada até 2006 pelos EUA, quando cessou o acordo entre os dois países. Desde então, e face às incursões insistentes de aeronaves, principalmente russas, no espaço desprotegido, a Islândia solicitou aos aliados que vigiassem o seu espaço aéreo.


Essa protecção tem, por isso, vindo a decorrer num sistema rotativo entre países da Aliança Atlântica com recursos adequados para o fazer, tendo o Estado Português disponibilizado meios para assegurar o patrulhamento do espaço aéreo islandês durante seis semanas, no segundo semestre de 2012, no âmbito do que é a linha de política externa nacional e compromissos NATO.
A preparação da missão começou, assim, ainda em Março de 2012, com o site survey, feito de modo a poder avaliar as condições existentes no local e a melhor definir as exigências logísticas, com a missão propriamente dita a ter início quase seis meses depois, a 7 de Agosto.
A base, integrada no aeroporto internacional de Keflavic e construída pelos americanos nos tempos da Guerra Fria, quando a Islândia era de capital importância no jogo de xadrez com o Pacto de Varsóvia, dispõe de excelentes infra-estruturas, pelo que a maior parte dos meios a deslocar relacionar-se-iam apenas com o funcionamento das próprias Esquadras e a especificidade dos meios aéreos - no caso os F-16AM das Esquadras 201 e 301.
Para efectuar adequadamente o patrulhamento aéreo a cerca de 3.000 quilómetros da base-mãe (MOB - Main Operating Base) foram destacadas seis aeronaves F-16 e 70 militares, de modo a cobrir as diversas áreas necessárias à missão: Operações, Planeamento de Missões, Manutenção, Centro de Reporte e Controlo, Logística, Sistemas de Comunicação e Informáticos, Apoio Médico, Protecção de Força e Relações Públicas. Todos os meios humanos e materiais foram transportados pelos C-130 da Esquadra 501 - Bisontes, perfazendo um total de 43 toneladas transportadas.



Entre os dias 16 de Agosto, quando foi atingida oficialmente a operacionalidade total, e 14 de Setembro de 2012, o último dia útil do destacamento, a FAP assumiu oficialmente o policiamento aéreo da Islândia, com dois F-16 em estado de alerta (QRA- Quick Reaction Alert) 24 horas por dia, sete dias por semana, assegurando que nenhum alvo desconhecido se aproximaria a menos de 200 quilómetros do espaço aéreo islandês sem que fosse seguido e identificado.
Na realidade, os contornos da missão a desempenhar não eram uma novidade para as Esquadras envolvidas, já que em 2007 tinham sido já chamadas a desempenhar uma missão muito semelhante em destacamento na Lituânia, onde fizeram o policiamento aéreo das três repúblicas bálticas vizinhas, por razões idênticas às da Islândia.



Para os pilotos envolvidos, os procedimentos também mais não são do que a continuidade do treino e missões efectuadas diariamente em Monte Real, tal como não poderia deixar de ser, numa Força Aérea certificada pela NATO para a missão de patrulhamento aéreo. "Treinar como se luta, para lutar como se treina" é, de resto, a máxima usada por Falcões e Jaguares, que igualmente em Portugal asseguram o QRA, com exigências em termos de prontidão, inclusivamente, maiores do que na Islândia (enquanto em território nacional o tempo máximo de reacção é de apenas 15 minutos, o que exige que pilotos e técnicos estejam permanentemente junto às aeronaves, na Islândia esse tempo foi de duas horas, obrigando apenas a que as tripulações e mecânicos estivessem na base).
À parte desta diferença formal, pouco mais há a acrescentar à lista de dissemelhanças nas funções, centrando-se estas principalmente na meteorologia local da Islândia, bastante mais rigorosa em termos de ventos e visibilidade, devido ao facto de se operar numa ilha, bem como a pormenores relacionados com a navegação aérea, distintos nos dois países, e devido também ao facto de na Islândia a nossa FAP operar a partir de um aeroporto civil internacional.
Para garantir a prontidão das aeronaves, 38 dos 70 elementos destacados seriam mecânicos de todas as áreas relacionadas com os sistemas do F-16, apoiados num kit de manutenção previamente definido, com todos os materiais necessários para intervenções de níveis um e dois, capaz de assegurar a autonomia relativamente à MOB em apenas três contentores.


Sendo as forças portuguesas praticamente auto-suficientes em todas as áreas, algumas houve que exigiram maior cooperação entre os dois países, como foi o caso do controlo de tráfego aéreo, assegurado pelos meios e controladores aéreos da Guarda Costeira Islandesa, em estreita cooperação com os elementos portugueses do Centro de Reporte e Controlo. A equipa nacional iniciou o destacamento uma semana mais cedo, de modo a poder conhecer o sistema de controlo aéreo operado e os respectivos equipamentos, efectuar treino de procedimentos e simulação específicos.
Outra área de interdependência seriam os meios de socorro a incêndios, que não tendo sido destacados a partir de Portugal, seriam totalmente fornecidos pela "host nation". A "fire crew" local não possuía, no entanto, qualificação para lidar com emergências com o sistema de armas F-16 e as suas especificidades, nomeadamente a hidrazina, combustível de emergência altamente tóxico. Dois simulacros de emergência foram, por isso, organizados durante o destacamento, coordenados pelo Oficial de Segurança em Voo do destacamento, que através do "On-scene Commander", também nacional, com total sucesso e eficácia estabeleceu a ligação com a equipa islandesa e efectuou a gestão dos meios de suporte à emergência.


Durante o destacamento Português, o Sistema de Defesa Aérea islandês foi ainda avaliado pela NATO, através da Célula de Controlo e Comando, aproveitando a presença de meios aéreos para a realização de uma avaliação mais efectiva, tendo sido aprovado com distinção todo o sistema. 
O excelente relacionamento entre elementos das duas nacionalidades, bem como a integração dos militares nacionais com a sociedade islandesa, foram uma nota comum a todo o destacamento, tendo mesmo um dos pilotos da Esquadra 201 participado na meia-maratona de Reiquiavique, obtendo um excelente 15º lugar entre 1770 participantes. O fácil relacionamento com as populações locais em todas as missões internacionais em que as forças portuguesas têm participado é, de resto, uma característica pela qual os nossos militares são reconhecidos internacionalmente. 
Sensivelmente a meio do destacamento efectuou-se rotação do pessoal destacado, permitindo assim duplicar o número de elementos a adquirir experiência neste tipo de missão, passando por isso por Keflavic, um total de 140 militares nacionais, com o regresso final a 20 de Setembro.


A 25 de Setembro, em cerimónia realizada na Base Aérea nº5, em Monte Real, em que estiveram presentes o General CEMGFA e os Chefes de Estado-maior dos três ramos das Forças Armadas, o Ministro da Defesa Aguiar-Branco enalteceu o total sucesso da missão, bem como o contributo do profissionalismo e empenhamento dos militares das Forças Armadas nacionais, para o reconhecimento internacional das capacidades do país e elevação da auto-estima, numa época em que as razões para sorrir não são muitas.  




BALTICS AIR POLICING 2007



No Outono de 2007, a Força Aérea Portuguesa assumiu as funções de vigiar o espaço aéreo dos países bálticos da antiga União Soviética, no âmbito da protecção a eles conferida pela NATO, dada a incapacidade destas nações em o fazerem por meios próprios. Assim, antecedendo a Noruega e sucedendo a Roménia (conforme comentado no artigo no Pássaro de Ferro sobre a queda do Muro de Berlim, deu-se a anteriormente improvável, para não dizer absurda coincidência de um país ocidental patrulhar o espaço aéreo de um pedaço da União Soviética, substituindo Mig-21 de um país do Pacto de Varsóvia por F-16, nas mesmas funções).

As imagens gentilmente cedidas pelas relações públicas do Estado Maior General das Forças Armadas, registam momentos na base de Siauliai, pouco comuns para os Vipers nacionais, mais habituados ao clima ameno das latitudes meridionais do Sul da Europa.

A missão decorreu sem incidentes de maior, contribuindo para testar e colocar em acção as capacidades da Força Aérea Portuguesa, em operar fora da base-mãe, bem como de todas as necessárias operações logísticas de apoio inerentes.

A operação contribuiu ainda para solidificar o estatuto de Portugal como nação activa no cenário mundial, depois de actuações meritórias também em Timor, Kosovo e Afeganistão, entre outras menos mediáticas, honrando através dos seus militares, os compromissos assumidos pelo país.


Fotos: Gabinete de Relações Públicas do EMGFA

Os Mig-21 romenos de partida

Os primeiros tempos, antes da neve

Preparativos para a missão depois do nevão da noite anterior

Cheking...

...checking...

A saída do abrigo para um taxiway onde passou recentemente o limpa-neves

Taxing...

Notar as listas amarelas e castanhas nos sidewinders denunciando munição real

Latitude: 55.9333N Longitude: 23.3167E

Orgulho nacional (e o ruído do  P&W F100-220)

Para que lado é o runway?

Os céus do Báltico (Foto: Esq 301)


O regresso da missão

Procedimentos de inspecção e desarmamento

De volta ao ninho

O comandante da Esquadra 201 à data

Patch alusivo (notar o falcão e o jaguar, símbolos das esquadras 201 e 301 respectivamente)

A fase "crítica" de devolver os "pássaros" ao abrigo



Mais um nevão

A logística

A distância a casa

Agradecimentos: Gabinete de Relações Públicas do Estado Maior General das Forças Armadas, Capitão-de-Fragata Pedro Carmona, Esquadras 301 "Jaguares" e 201 "Falcões".


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