VOOS DE EXPERIÊNCIA E VOOS DE TESTE

Texto: António Luís
Artigo publicado na revista Mais Alto deNov/Dez de 2011

Introdução

Os desenhos animados da série “Malucos das Máquinas Voadoras” poderiam, com uma certa dose de humor, dar o mote a este trabalho. Caricaturando uma época em que a aviação evoluía à custa da experimentação pouco teórica e em que elevar-se no ar era já por si um acto de coragem,  Dick Dastardly e o seu fiel cão Muttley tripulavam e usavam as mais abstrusas aeronaves. Sempre com uma dose de "novidade tecnológica" e improviso qb, perseguiam incansavelmente um pombo-correio que carregava preciosas mensagens secretas, explorando as suas máquinas para lá dos limites do razoável. 


A realidade de hoje em dia, no que toca a novas aeronaves, introdução de novas tecnologias ou sistemas, e testes aos mesmos, não podia no entanto estar mais longe destes desenhos animados, que fizeram as delícias de muitos que eram crianças nas décadas de 70 e 80.
A Força Aérea Portuguesa do século XXI, colocada perante novos desafios que confrontam e congregam a sua própria sobrevivência enquanto força operacional actualizada, não se pode aquietar perante um quadro de constante evolução dos meios aéreos. As novas frotas e as valências que estas proporcionam, também em termos de sistemas constantemente actualizáveis, obrigam a que, permanentemente, se esteja a par do que a tecnologia vai facultando, no sentido da sua rentabilização ao máximo enquanto  plataformas aéreas, que  funcionam muito para além da sua “capa” militar de “armas de guerra”.
Conforme já foi aludido num recente artigo do Maj. Pilav José Dias, nesta revista, a Força Aérea incorporou nas suas fileiras a valência “Pilotos de Testes”, através da formação de pilotos na NTPS (National Test Pilots School) em Edwards nos EUA. Esta mais valia resultou de um grande esforço efectuado no sentido de dotar a Força Aérea de novas capacidades, que possibilitem uma melhor gestão de vários programas que estão a decorrer, que não só os ligados aos F-16, mas também a outras frotas cuja sofisticação requer cuidados especiais e actualização permanente, como são os casos do EH-101, C-295 ou P-3C CUP+.

Um F-16 acabado de ser transformado para o padrão MLU realiza o voo de experiência

Ensaiando as máquinas voadoras

A exposição pública que as operações aéreas proporcionam, levanta enorme curiosidade, sobretudo naqueles que nutrem a paixão pelos aviões e, paralelamente, se interessam pelos mecanismos que os atestam como plataformas sofisticadas e, por isso, muito apelativos ao “saber mais sobre, como e porquê”. O surgimento dos voos relacionados com a modernização da frota  F-16 para o padrão MLU, teve como particularidade a ocorrência regular de voos com aeronaves de cor amarela (porque pintados ainda em tinta primária e antes da típica camuflagem final), que cedo despertaram a curiosidade pública e se prestaram a alguns equívocos quanto à natureza dos voos que efectuam a partir de Monte Real e a terminologia correcta deste tipo de voos.
Neste artigo por isso, vamos focar-nos apenas nas operações ligadas aos F-16, sobretudo as relacionadas com a sua modernização, manutenção e aprontamento para a linha da frente.
Aliado a esta cor bizarra para um avião de guerra (os aviões nesta fase costumam mesmo ser apelidados de "canários"), está normalmente associado um voo com um perfil determinado - uma atitude e sequência diferentes das dos voos operacionais. Para baralhar mais ainda, este perfil de voo pode ser observado também em aeronaves já operacionais, o que levou ao surgimento de designações várias, como: “voo de ensaio, voo de teste, voo de experiência ou até, voo de manutenção”.
Convém então, estabelecer as diferenças entre estas tipologias de voo e até “eliminar” algumas.

O F-16BM n/c 15138 foi prototipo usado nos testes das Tapes 5.2 e 6.1

Voo/Pilotos de Teste

São os voos que uma aeronave efectua, em que são testados novos sistemas ou se incorpora(m) nova(s) performance(s), com vista a posterior certificação e operação pelas plataformas aéreas de uso estandardizado. Estas aeronaves são tripuladas por um piloto com a qualificação de “Piloto de Testes”. Não é correcto afirmar que se façam este tipo de voos com a frota F-16 em Portugal, normalmente.
Os sistemas a testar passam por uma fase DT&E – Development, Test and Evaluation e depois dessa fase, segue-se o OT&E – Operational, Test and Evaluation. A fase dos testes é muito controlada, quantificada e avaliada e dela depende a evolução dos sistemas para futuro uso operacional. Exemplo disso é a incorporação da Tape M5.2 nos F-16 e, brevemente, da M6.1, cuja explicação já foi dada no aludido trabalho do Maj PILAV Dias na Mais Alto nº389. Durante os meses de Abril e Maio do corrente ano (NR: 2011), realizou-se em Monte Real a avaliação intermédia (EOA - Early Operational Assessment) da evolução deste último software relacionado com a frota F-16 MLU, sendo por isso das poucas vezes que de facto se realizaram voos de teste nos céus nacionais.

Os dois pilotos da FA qualificados como Pilotos de Teste. Notar o patch do curso em forma de X no braço esquerdo

Neste momento, a Força Aérea Portuguesa dispõe nos seus quadros de dois pilotos com a qualificação de "Pilotos de Teste", por isso aptos a voar todo o tipo de aeronaves, desde jactos, aviões a hélice, helicópteros, mono e plurimotores, etc., constituindo um património de enorme interesse e mais valia para uma Força Aérea pequena como a portuguesa. Os pilotos com esta qualificação, constituem uma nova valência na nossa arma aérea, tendo sido formados no âmbito da EPAF – European Participating Air Forces, num processo que apesar de despoletado pelo programa MLU em curso nos F-16, permitiu dotar a Força Aérea Portuguesa desta nova capacidade, disponível desde então para qualquer outro programa ou frota nacional. Possibilita assim uma situação de actualização permanente, com todos os benefícios a isso inerentes, seja em termos de know-how rentabilizável, seja também no plano dos custos. 

Voo de Experiência

Estes voos ocorrem frequentemente em todas as frotas nacionais e assumem um carácter mais espectacular em Monte Real, onde, para além dos rotineiros com aeronaves da frota operacional, ocorrem regularmente, voos das referidas aeronaves “amarelas”.
Os voos destes aviões são FCF – Functional Check Flights, ou MCF - Maintenace Check Flights, consoante os aviões venham de modificações funcionais ou manutenção corrente, mas em ambos os casos visam verificações funcionais, avaliação de sistemas e o seu funcionamento de acordo com as TO – Technical Orders. Estes voos inserem-se numa terminologia denominada “Voo de Experiência” e ocorrem, conforme aludido, no final de manutenções mais profundas ou, no caso das aeronaves em transformação para MLU – aeronaves amarelas - quando são dadas como aptas para efectuar o primeiro voo nesse padrão. Na gíria, estes voos são também por vezes denominados “Voos de Manutenção”. O termo "Voo de Ensaio" pura e simplesmente não é correcto.
Os pilotos que podem efectuar estes voos são, por norma, os mais experientes, e a gestão da sua certificação cabe às esquadras de voo, resultante do seu percurso nas unidades aéreas. São "FCF Pilots – Functional Check Flight Pilots". 



Como decorre um Voo de Experiência em F-16?

A operação da plataforma F-16 é complexa e, sobre todo o seu mecanismo de exploração, há muitos procedimentos que são fundamentais para o sucesso desta frota na Força Aérea.
Os Voos de Experiência seguem uma “check list” perfeitamente definida e obedecem a uma metodologia muito balizada, gerida ao segundo e ao milímetro. Durante o voo, o piloto procura antecipar problemas e quando necessário agir em função da sua ocorrência, seguindo sempre procedimentos estipulados, no sentido da salvaguarda do tripulante e da aeronave em equação.


Quanto ao voo propriamente dito, o avião é entregue pela manutenção “limpo” (ie: sem depósitos ou elementos externos) e o combustível é o mínimo necessário. A descolagem do avião começa por fazer-se o mais rapidamente possível começando no início físico da pista (incluindo a zona de over run - cabeceira da pista, não utilizada normalmente em operação comum). O avião quando já no ar, segue ainda assim paralelo à pista até ao seu final, em pleno afterburner, por forma a acautelar uma emergência durante esta fase. Seguidamente, o piloto puxa a aeronave rapidamente para um “bloco” ou patamar que está acima da chamada fase "black hole” – uma zona fora da região de segurança da cadeira de ejecção, ou do voo planado que permita trazer o avião à pista em segurança em caso de falha. O princípio inerente a esta metodologia é colocar o avião fora das zonas de risco com rapidez. Por este motivo a primeira fase do voo ocorre sempre com o aeródromo à vista.

Pode dizer-se que o procedimento de um Voo de Experiência é como “saltar entre plataformas”, diminuindo o tempo nas zonas de risco, definidas pelas probabilidades estatísticas. Aliás, todas as acções que o piloto toma, foram definidas em função dessas probabilidades. A sua interpretação bem como outros factores - devidamente estudados e acautelados - relativos a eventuais situações problemáticas  que possam ocorrer, levaram à definição dos procedimentos adequados a cumprir escrupulosamente.

O início da subida a 90º num Voo de Manutenção

Os sistemas a verificar são muitos e por isso a check list está dividida em blocos. O referido primeiro bloco, denominado dos 15 mil pés, ocorre no final da subida a 90º. Nele são verificadas as condições de life support – pressurização, controlos de voo e os demais sistemas básicos da aeronave.
À medida que a confiança do piloto na aeronave aumenta, depois das verificações iniciais, efectua-se o salto para o segundo bloco, que decorre  entre os 30 e os 40 mil pés e numa área mais afastada da base. Neste bloco realizam-se os mais delicados testes ao motor que, numa aeronave monomotor como é o F-16, se revestem de particular acuidade.

Fase dos 30.000 pés de um voo de experiência

A experimentação da aeronave é feita paulatinamente, à medida que, como já se referiu, o piloto sinta que a resposta do avião é conforme, e de acordo com as determinações da check list e TO. Estabelecida essa relação de confiança, a aeronave é testada até aos limites pré-definidos. Depois de ensaiado com sucesso o motor, passa-se aos sistemas da plataforma F-16, tais como o radar, canhão e tudo o que caracteriza uma aeronave militar desta natureza e complexidade.
Quando tudo está finalmente verificado, procede-se ao regresso à base, o que sucede normalmente ao fim de 45 minutos a uma hora de voo. Se o avião for dado como apto pelo piloto e para o assinalar, é feito o sobrevoo à zona da manutenção, momento sempre muito desejado pelos diversos técnicos que, diariamente, se empenham no sucesso e segurança de todos os voos. O piloto certificou e validou a aeronave para operação na linha da frente!

A passagem final do voo de experiência para comemorar um trabalho bem realizado

Observados de fora, os pormenores que distinguem os Voos de Experiência dos voos normais,  proporcionam quase sempre imagens interessantes aos spotters e demais admiradores da aviação. Tudo neles contudo, obedece a rigorosos procedimentos e metodologias que, ao longo destes anos em que o F-16 está ao serviço da Força Aérea, se têm revestido de enorme sucesso e elevado grau de operacionalidade e confiança nesta frota.

A chegada à Doca 4 em Monte Real após um voo de experiência bem sucedido



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